29/08/2016

Cirurgia para readequação de sexo é ‘barrada’ em Minas

Foto reprodução/O tempo
Pense como alguém que olha para o próprio corpo diariamente e não se identifica com o que vê, e deseja arrancar “aquilo” que sequer consegue falar o nome: o órgão sexual. Pior ainda é saber que existe uma solução, mas ela não está ao alcance do espelho. Muitos transexuais em Minas Gerais vivem dessa maneira: precisam fazer a cirurgia de readequação sexual e não enxergam caminhos. Não existe nenhum hospital público no Estado que faça o procedimento, e há somente um ambulatório para tratamento pré e pós-cirúrgico, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), no Triângulo. A unidade tem equipe médica capacitada para a operação, mas é impedida de fazê-la.

“O preconceito em torno disso é nossa maior dificuldade. Muitos ainda entendem o procedimento como algo estético, e não um cuidado de saúde importante, um elemento de constituição da pessoa”, afirma a professora da faculdade de medicina e antropóloga Flávia Teixeira, coordenadora do Ambulatório Saúde das Travestis e Transexuais do Hospital de Clínicas de Uberlândia (HCU). A unidade, criada em 2007, foi a primeira do tipo no país, e, desde 2013, a equipe luta junto à direção do HCU para se credenciar a nível ambulatorial no Ministério da Saúde. Eles conseguiram enviar o pedido em março, mas querem autorização para se tornar centro cirúrgico de redesignação sexual.

O desejo da equipe de Uberlândia só não é maior que a angústia de pacientes como a cabeleireira Veronyka Gomes, 34, uma das primeiras usuárias do ambulatório. Ela aguarda a cirurgia há quase dez anos. Veronyka se identifica como mulher desde a adolescência, vivida na zona rural de Goiás. Mas conseguir a aceitação da família foi mais fácil que lidar com o preconceito social e com autoridades que não reconhecem sua condição. 

“Quando criança, eu via que minha cabeça era como a da minha irmã, mas meu corpo, igual ao do meu irmão. Quero fazer essa cirurgia, não é para ficar bonita. Eu vou continuar sendo a mesma Veronyka, mulher, mas vai resolver um detalhe íntimo meu. É uma questão de saúde, e não uma doença”, desabafa, ao mesmo tempo que tem consciência do que reivindica. “A gente leva uma vida normal, paga imposto, e ninguém vê nosso direito”, pondera.

Realidade. Apesar de avanços na última década, o direito de pessoas transexuais ainda é restrito. Apenas cinco hospitais públicos no país fazem a cirurgia de readequação, e a espera de quem já está cadastrado pode passar de dez anos . Os únicos que poderiam receber pacientes do ambulatório de Uberlândia são o HC de Goiás (que ficou paralisado de 2012 a 2016, sem condição de dar vazão à fila de 27 mulheres, retomando em março o trabalho) e o Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio. “(Este) não está operando mais por conta de graves problemas financeiros”, indica Flávia.

O que resta a Veronyka é esperar que um dia a equipe médica que a acompanha esse tempo todo no ambulatório da UFU possa transformar sua genitália masculina em feminina. Mas o diretor geral do HC de Uberlândia, Hélio Lopes Silveira, informa que o hospital já tem uma demanda reprimida de cirurgias de urgência/emergência, câncer e cardíacas, entre outras, por falta de salas cirúrgicas, medicamentos, materiais e pessoal. “Em decorrência disso, a direção é compelida a não assumir novos compromissos”, conclui o diretor.
“Existe a possibilidade e o desejo da nossa equipe, temos um cirurgião plástico, temos condições de fazer (a readequação sexual), buscamos capacitação fora do Estado e do país, mas internamente não houve ainda o interesse do credenciamento.”
Flávia Teixeira
Coordenadora do ambulatório da UFU
Operação particular chega a R$ 60 mil
Desde os 14 anos, Fernanda Toloto, 26, sonha em fazer a cirurgia de redesignação sexual. Ela nunca usou sexualmente o órgão genital com o qual nasceu, e as frustrações fizeram com que ela tentasse se matar duas vezes. “É um sonho que a gente sabe que nunca vai se realizar, é como jogar na loteria. Se realizar, eu vou ser muito mais feliz. Não aceito meu corpo, só quem passa por isso entende”, diz.

Moradora de Iraí de Minas, no Triângulo, a 95 km de Uberlândia, ela começou o tratamento terapêutico e hormonal no ambulatório da UFU em 2008 e não terminou. Retomou em maio último, mas teria que ir toda semana: “Para mim é difícil, vou quando eu posso”.

A cirurgia na rede particular ou no exterior – a Tailândia é muito procurada – custa de R$ 20 mil a R$ 60 mil. O Conselho Federal de Medicina reconheceu o procedimento como ético há menos de 20 anos, então existem poucos cirurgiões experientes no Brasil, alguns com processos judiciais por operações malsucedidas. Ainda assim, juntar dinheiro para fazer a transgenitalização parece mais possível que aguardar na rede pública. É o que começou a fazer Maria Catarina Bolena, 20. “Não aguento viver mais com ‘isso’. Não quero esperar dez anos no SUS”, diz. (JS)
Atendimento em Belo Horizonte
O Hospital das Clínicas de Belo Horizonte já realizou procedimentos ambulatoriais para transexuais, mas o serviço não chegou a ser habilitado pelo SUS. A Secretaria de Estado de Saúde informou que está em tratativas com o município para reabertura. A Rede SUS-BH tem nove pacientes cadastrados para realizar o processo de transsexualização pelo Hospital do Rio de Janeiro, com viagens custeadas pelo sistema de saúde.

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