O (i)limitado poder do deboche 'DEADPOOL 2' - FDV

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17/05/2018

O (i)limitado poder do deboche 'DEADPOOL 2'

Contar uma piada sem graça sabendo que ela não tem nenhuma não a torna mais engraçada. O maior problema de “Deadpool 2”, que estreia nesta quinta-feira (17) advém um pouco disso. Não que ele não tenha graça – o filme todo é uma enorme piada, e quem riu do primeiro vai curtir esse também. 
Mas o longa é daqueles que faz uso de um monte de clichês sabendo que eles são clichês. E acha que essa mera autoconsciência, reconhecida no off e nos diálogos engraçadinhos, torna o filme melhor – mais inteligente, original, descolado – do que aqueles de que ele tenta debochar. O que não é o caso. Reproduzir um clichê por si só, sem subvertê-lo – mesmo que você saiba disso –, não é genial. É simplesmente preguiçoso.
O roteiro segue Deadpool (Ryan Reynolds) tentando superar uma perda pessoal traumática. Após uma tentativa frustrada de se juntar aos X-Men, ele acaba numa prisão para mutantes com o jovem rebelde Russell (Julian Dennison), o Punho de Fogo. O mercenário se apega ao garoto e, quando Cable (Josh Brolin, o vilão da vez após Thanos) chega do futuro para literalmente exterminar o menino, Deadpool decide reunir uma equipe para protegê-lo.
Qualquer semelhança não tem nada de coincidência. “Deadpool 2” chupa (deliberadamente) sua trama de “Exterminador do Futuro”, mas também de “Bambi”, “O Rei Leão” e “Entrevista com o Vampiro”. A maior referência, porém, que o filme deixa clara logo na primeira cena, é a “Logan”: um assassino sanguinário que encontra redenção na afeição por uma criança abusada.
Eis aí a grande incógnita da produção: é ok copiar a trama de outro filme, desde que você assuma esse plágio e trate tudo como uma grande piada? Para o público do anti-herói desbocado, aparentemente, sim. A eles, a história interessa apenas como uma desculpa para as tiradas ininterruptas, debochadas, profanas e metalinguísticas do protagonista. E isso o longa entrega aos montes, numa rajada descontrolada e sem limites de baixo calão na cara do espectador.
Dizer que os comentários e piadinhas metalinguísticos de Deadpool eventualmente se tornam cansativos é ir contra a própria origem do personagem nas HQs, onde a tagarelice é parte integrante de sua persona. No filme, porém, chega um momento em que a vontade é que a voz de Reynolds (apaixonado por um personagem que o torna o centro constante das atenções) pudesse dar espaço para o público apreciar a trilha, a montagem ou qualquer outro ator que não seja ele.
Até essa fidelidade às origens, no entanto, é seletiva. A pan-sexualidade do herói, por exemplo, é resumida a uma série de piadinhas homofóbicas com Colossus (Stefan Kapicic), que só vai fazer rir quem ainda acha que ser gay (ou bi) é engraçado por si só.
A melhor gag do filme, na verdade, não envolve Deadpool – e, sim, a novata Domino (a boa Zazie Beetz, de “Atlanta”). Seu superpoder da “sorte” é o comentário mais sutil, inteligente e cáustico que o roteiro (dos mesmos autores do longa-metragem original) faz sobre as conveniências absurdas que esse tipo de produção usa para proteger seus protagonistas.
Ainda que esse humor – um one man show de piadas internas para o deleite nerd – continue sendo o prato principal do longa, é inegável que a trama de “Deadpool 2” é mais sólida e substancial que a de seu antecessor, com o diretor David Leitch (“Atômica”) conseguindo fazer o filme se sustentar como narrativa, e não apenas como uma série de esquetes cômicos. É claro, porém, que a trama só serve para aproximar Deadpool dos X-Men, que, com a compra da Fox pela Disney, devem perder sua verve mais política e assumir o tom engraçadinho-leve-baunilha dos filmes da Marvel. Em tempos em que tudo termina em pizza, é o deboche marveliano transformando o cinema em uma grande piada.

 

Presença brasileira no longa

São Paulo. A atriz Morena Baccarin, 38, volta em “Deadpool 2” a representar Vanessa, a namorada do herói vivido por Ryan Reynolds. No primeiro filme, de 2016, ela esteve no mesmo papel. Nascida no Rio de Janeiro, ela foi morar nos Estados Unidos com sete anos, na companhia do pai, o jornalista Fernando Baccarin, que foi trabalhar no país. Desde 2001, Morena vem atuando em produções americanas. Teve participações nas séries “The O.C.”, “How I Met Your Mother” e, atualmente, está em “Gotham”, em que vive Leslie Thompkins. Morena concorreu como atriz coadjuvante ao Emmy, a principal premiação de TV americana, por sua atuação em “Homeland”, em 2011.

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